Corria o ano de 2014, e em Valença vivia-se um desafio. A tradição da exposição de presépios de rua, que enchia de cor as montras e os recantos da nossa Fortaleza, era um evento querido, mas sentia-se que faltava algo. Ano após ano, apesar do esforço notável do Município e do envolvimento das associações e comerciantes, o evento parecia não conseguir superar as expectativas, não gerando o impacto que uma cidade com a nossa história merecia.
Havia até uma pequena “maldição” local que, de forma caricata, ilustrava esta necessidade de mudança: todos os anos, o Menino Jesus do presépio principal era invariavelmente roubado, deixando a Sagrada Família incompleta.
Foi neste contexto que fui abordado pelo então Vereador da Cultura. O desafio era claro: pensar num projeto de Natal diferente, algo que chamasse a atenção e que devolvesse o encanto à tradição. Escusado será dizer que aceitei com todo o gosto.
Começou então a minha caminhada. Mergulhei em pesquisas, corri a internet à procura do que havia e, mais importante, do que não havia. Mas a verdadeira resposta não estava no mundo digital. Estava no nosso concelho, escondida à vista de todos. Corri as freguesias, as ruas, procurei em cada canto uma inspiração, uma resposta que fosse genuinamente valenciana.
E encontrei-a. Encontrei-a no local mais improvável: os estaleiros municipais.
Ali, esquecidos pelo tempo, repousavam enormes e imponentes troncos de Plátano. Eram árvores centenárias, testemunhas silenciosas que tinham sido extraídas de uma das principais avenidas da nossa cidade. Pela sua dimensão, pelo seu porte, eram fáceis de imaginar as décadas, talvez mais de um século, de vida valenciana que tinham observado. Viram a nossa história a desenrolar-se sob a sua sombra.
Naquele momento, o projeto nasceu. Que melhor matéria-prima poderia existir para o Presépio de Valença do que a própria madeira que testemunhou o nosso crescimento? Que melhor forma de honrar a nossa identidade do que dar a estas árvores uma nova vida, uma dignidade renovada, transformando-as no símbolo máximo do nosso Natal?
O desafio passou a ser o de prolongar a sua existência, de transformar estas testemunhas mudas em figuras centrais da nossa celebração.
O resultado foi um presépio de uma escala e de uma alma que nunca antes se vira. As figuras, esculpidas na madeira centenária da nossa cidade, não eram apenas representações; eram a própria história de Valença ali presente, a guardar o Menino.
A reação foi imediata e avassaladora. A imagem deste presépio, nascido da nossa própria terra, varreu o país em notícias e atravessou a fronteira, cativando também o país vizinho. De repente, Valença tinha um presépio que não só era impossível de roubar, como era impossível de ignorar. Tinha um presépio com a alma da sua gente, esculpida na madeira do seu tempo.