Há obras que nascem com um destino traçado. São sonhadas para um lugar, para um propósito, para um olhar. Os meus “Mareantes” foram assim. Nascidos em 2019, estas figuras de madeira silenciosas foram esculpidas para serem os guardiões de um quarto único, lá para os lados da Serra D’Arga. A sua missão era simples: observar, desde os pés de uma cama feita à medida, os sonhos de quem por ali passasse.
A história deles, no entanto, teve uma mudança de rota inesperada. É uma história sobre arte, amizade e, acima de tudo, sobre como uma garrafa de água com tinta pode gerar o maior dos equívocos.


Tudo começou com o desafio de um amigo: criar um ambiente de raiz para um quarto de hóspedes na sua quinta. Não era apenas mobilar; era dar uma alma ao espaço. O projeto já estava todo pensado e tomava forma no meu ateliê. A peça central seria uma cama de onde, lá do alto, se avistariam os meus Mareantes. Para a cabeceira, outras peças, incluindo um candeeiro, já estavam a ser executadas. Era um ecossistema inteiro de madeira e histórias a ganhar vida.
A par da madeira, dediquei-me a criar a cor exata para as paredes. Não queria um tom de catálogo, queria uma atmosfera. Depois de várias misturas, cheguei à cor perfeita. Era uma cor que abraçava a madeira e a luz da serra. Como o pintor só podia fazer a aplicação à noite, pois vinha de outro trabalho, a solução foi simples: deixei a minha criação num recipiente humilde, mas prático, uma garrafa de litro e meio de água. Eu não estaria presente no momento da aplicação, mas veria o resultado com a primeira luz da manhã.
E que resultado.
Na manhã seguinte, cheguei à obra e fui direto ver o espaço. O coração encheu-se de satisfação. A cor na parede era aquela. Era exatamente a visão que eu tinha tido. O tom estava perfeito, a atmosfera estava criada.
Sorrindo, entrei no restaurante para encontrar o meu amigo, pronto para celebrar o avanço. A receção, no entanto, foi um balde de água gelada. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele abordou-me com um ar de quem sabia tudo. Disse-me, sem rodeios, que eu “de cores não percebia nada”, e que a cor que estava na parede, essa sim era boa, porque tinha sido a escolha do pintor, um homem de bom gosto.
Fiquei… fulo. É a única palavra. Fiquei furioso. A minha reação imediata foi tão visceral que as palavras que me vieram à alma não se podem escrever aqui. O absurdo era tal que nem me dei ao trabalho de explicar.

Foi a minha companheira, que me acompanhava e tinha ficado um passo atrás, quem desfez o nó com a maior das calmas. Aproximou-se do meu amigo e perguntou-lhe com simplicidade:
“A tinta que o pintor aplicou… por acaso era uma que estava numa garrafa de litro e meio de água?”
Ele, orgulhoso da “sua” descoberta, confirmou de imediato: “Sim, foi essa mesma! Muito melhor que a do Nunes, não acha?”
A resposta dela foi a frase que encerrou o projeto:
“Pois… essa é a tinta que o Nunes fez e deixou ontem para se aplicar.”
O silêncio que se seguiu valeu mais que qualquer discussão. Não era preciso dizer mais nada. Naquele momento, percebi que os meus Mareantes não podiam atracar naquele porto. Faltava o essencial: o respeito pelo processo e a confiança no timoneiro.
E assim, os trabalhos pararam. A grande cama nunca foi acabada e os Mareantes nunca fizeram a sua vigília na Serra D’Arga. Hoje, continuam comigo, no ateliê. São viajantes que guardam a memória de um destino que não se cumpriu, não por falta de mar para navegar, mas por um monumental excesso de disparate.
Por vezes, as obras ganham uma história muito mais rica do que aquela que lhes planeámos. E os meus Mareantes, hoje, mais do que esculturas, são um divertido lembrete de que, por vezes, a nossa visão está tão certa que até quem a critica a elogia por engano. E a viagem deles, garanto-vos, ainda não acabou.