Existem obras que nascem num instante, numa explosão de clareza. E existem obras que respiram, que crescem connosco, que se recusam a aceitar um ponto final. “A Mãe” é uma dessas obras. Para mim, é menos uma pintura e mais uma caminhada, um diálogo que começou em 2012 e que, para ser sincero de coração, sinto que ainda não terminou.
Durante quatro anos, até 2016, voltei a esta tela incessantemente: por vezes dia após dia, outras de mês em mês, outras ainda de quando em vez. Cada pincelada era uma nova conversa, uma nova camada de significado. É uma obra feita de tempo, de paciência, de intervenções constantes que procuravam capturar uma essência em perpétuo movimento.
Tecnicamente, é tinta acrílica e óleo sobre uma tela de 130x130cm, assente numa estrutura robusta de madeira de pinho. Mas a sua verdadeira natureza é muito mais complexa.
Quando se olha para a tela, vê-se um turbilhão de vida a toda a volta. Formas quentes, em tons de fogo, parecem dançar, cheias de energia. São como ecos de memórias antigas, de emoções que todos partilhamos, a celebrar o milagre da criação.
Mas no meio de toda essa agitação, está ela. O seu rosto, de um azul profundo, é a própria calma. É a serenidade no meio da tempestade. É a força silenciosa que observa tudo sem se perturbar, que acolhe o mundo sem se deixar consumir por ele.
Ela é o ponto de partida, o equilíbrio. O centro silencioso de onde tudo nasce.
Mesmo depois de a ter dado como “terminada” em 2016, a sua história continua a desenvolver-se em mim. É uma obra que me ensinou que a criação não termina com a última pincelada. Ela vive, respira e pede continuidade. Foi este sentimento que me levou a um novo projeto, a uma nova busca: dar-lhe descendência.
Pensei em criar o que chamo de “manhas da raposa” – uma série de novos arquétipos femininos, explorados noutros suportes. Cada um com o seu próprio título, a sua própria personalidade, o seu próprio universo de cores, símbolos e formas. É uma forma de a obra-mãe continuar a dar à luz, a expandir o seu universo.
Estou a trabalhar nisso. É tudo uma questão de tempo. Porque, tal como uma mãe, a verdadeira arte nunca nos abandona. Continua a desafiar-nos, a ensinar-nos e a crescer dentro de nós, pensando-se quase infinitamente.