Na caminhada de um artista, por vezes, as obras mais significativas não nascem de uma tela em branco, mas dos destroços de um sonho esquecido. A história da Estrela do Oriente, que hoje ilumina o nosso Presépio de Valença, é uma dessas histórias. É uma narrativa sobre resiliência, sobre a capacidade de ver luz onde outros viam apenas fim de linha.
Tudo começou com outra criação, a “Maia” de Valença. Um projeto que projetei com orgulho e que, com os seus 9 metros de diâmetro, alcançou o recorde do Guinness como a “Maior Maia do Mundo”. Era um símbolo de celebração, de comunidade. Mas o tempo e as vontades, por vezes, são cruéis com as criações. Em 2020, encontrei a estrutura da nossa Maia num estado lastimável, empenada e torcida, relegada para um espaço de material inerte, vítima do desleixo e da falta de brio.
O que fazer com aqueles ferros retorcidos, com a memória de um triunfo agora abandonada? A pergunta assombrava-me. Para um artista, não há maior inquietação do que ver o potencial desperdiçado.
Foi então, ao olhar para aquela estrutura ferida, que a ideia surgiu. Naquelas curvas forçadas, naqueles arcos partidos, comecei a ver as pontas de uma estrela. Uma Estrela do Oriente, a guia, o farol que faltava para dar ainda mais alma ao nosso Presépio, já ele nascido da madeira centenária da nossa terra.
A primeira proposta, no entanto, encontrou um “não”. As complexidades políticas e os desentendimentos falaram mais alto. A ideia ficou guardada, à espera de um tempo em que a vontade de criar fosse mais forte do que as adversidades.
Esse tempo chegou um ano depois, com um novo executivo municipal que renovou a confiança no meu trabalho. A proposta da Estrela do Oriente foi novamente apresentada e, desta vez, teve parecer favorável. Havia, no entanto, um obstáculo: um parecer técnico que atesta, de forma incompreensível para mim, que nada se aproveitava da antiga Roda da Maia.
“Que fada a minha, que só andava a tramar”, pensei. Mas a convicção de um artista é, por vezes, a sua ferramenta mais teimosa. Fiz frente à adversidade, garanti que não seria necessário qualquer material adicional para além da mão de obra. Acreditei que, naqueles destroços, estava tudo o que precisávamos.
A confiança foi depositada, e a obra executada.
Dos ferros empenados e esquecidos, nasceu a luz. A Estrela do Oriente ergueu-se, não como uma obra nova, mas como uma ressurreição. Uma prova de que nada está verdadeiramente perdido quando há vontade e empenho.
Hoje, quando ela brilha sobre o Presépio, ilumina muito mais do que as figuras de madeira. Ilumina uma história de dedicação, de amor por uma comunidade e pela sua identidade. Lembra-nos que, mesmo a partir do que está partido, podemos fazer nascer a luz que aquece o coração de uma família, de uma cidade inteira.
Na verdade, fez-se Luz quando a vontade de criar se uniu ao empenho para fazer brilhar os olhos da nossa comunidade.