Há projetos que são mais do que uma simples pintura; são um ato de recuperação da memória, um gesto de dignidade para um lugar. A história do mural que hoje adorna o antigo posto de leite de Arão é uma dessas caminhadas.
Tudo começou em julho de 2024, com um desafio que me foi lançado pela edilidade local. O objetivo era nobre: dignificar um espaço com uma dupla vocação de amparo ao peregrino. Um antigo posto de leite que, nos dias de hoje, serve não só como ponto de apoio na caminhada, mas também como um local de purificação do corpo, através das massagens que ali se proporcionam.
Apresentei várias propostas, explorei diferentes estilos e formas, mas rapidamente percebi, em conversa com os responsáveis, que o caminho a seguir era o de criar algo que fosse um verdadeiro emblema da nossa terra. A resposta estava à nossa frente, imponente, a guardar o rio: a Fortaleza de Valença.
Este local não é um ponto qualquer. É aqui que pulsa o coração do Caminho Central Portugês, e é aqui que sentimos a proximidade do Caminho da Costa, que passa ali tão perto. Valença é um ponto de encontro, de passagem, de reflexão para milhares de almas todos os anos. A obra teria de honrar essa vocação.
E assim nasceu a visão para o mural. Na parede do antigo posto de leite, a paisagem da nossa terra ganhou forma: o peregrino, figura central da nossa identidade, caminha com a nossa Fortaleza como pano de fundo, banhada pela luz quente de um final de tarde e espelhada nas águas do Minho. O título, “O CAMINHO FAZ-SE POR VALENÇA”, surgiu como uma evidência, pois aqui, o caminho de cada um — seja o do peregrino que encontra apoio, ou o nosso, que aqui vivemos — é moldado pela história destas muralhas.
Hoje, aquele antigo edifício já não é apenas um ponto de apoio. É uma janela aberta para a alma da nossa cidade, uma saudação a quem chega e uma memória para quem parte. É a prova de que a arte, ao serviço da comunidade, não apenas decora, mas dignifica.