Corria o ano de 2023 quando Sebastião Nunes, um homem empreendedor na área do turismo e do apoio aos peregrinos, me apresentou um desafio com uma alma muito especial. O seu projeto era um alojamento local em Caminha, mas não um qualquer. Era um espaço situado num ponto estratégico, um lugar de decisão para todos os que percorrem o Caminho da Costa: o ponto exato onde a caminhada se divide, onde cada peregrino tem de fazer uma escolha. Seguir pela costa, com vista ao Mar, ou rumar para o interior, para Valença, com vista ao Rio.
A proposta que me foi feita era a de criar um mural que honrasse este local e os seus caminhantes. Fiquei contente por a minha visão ter sido aceite de imediato, mas o verdadeiro desafio era criar algo que fizesse jus à importância daquele momento.
E assim nasceu a ideia deste peregrino. Uma figura imóvel, vestida a rigor, mas com um olhar que acompanha quem passa. A minha intenção foi criar um guardião silencioso que, de qualquer posição que se observe, parece estar atento, a ver quem passa e a testemunhar a escolha que cada um faz no seu caminho.
Ele está enquadrado por arcos que representam a passagem, a transição. E nas colunas, a escolha está claramente marcada: de um lado, a vieira que aponta para o Mar, do outro, a que aponta para o Rio.
Hoje, quem passa por ali não vê apenas uma pintura numa parede. Encontra um companheiro de caminhada, um ponto de referência que não só indica as opções, mas que parece compreender o peso dessa decisão. É uma homenagem a todos os que por ali passam, e um lembrete de que, em cada encruzilhada, o caminho faz-se, de facto, com uma escolha.