Olho para esta fotografia minha, tirada na escola por volta de 1974, eu com os meus nove anos, e não consigo deixar de sorrir. Talvez já houvesse ali uma qualquer pinta de artista, uma curiosidade inquieta sobre como as coisas se transformam. Mas o que esta imagem não conta é que, por essa altura, a minha grande paixão não era a pintura, mas sim a química… mais especificamente, a arte de fazer pólvora negra.
Ainda hoje sei a composição de cor, mas o ingrediente mais difícil de obter era o Nitrato de Potássio. A minha fonte era a drogaria do Sr. Francisco, um homem de olhar desconfiado. Da primeira vez que lhe pedi o pó branco, a coisa passou, mas não sem a pergunta inevitável: “Para que é que o menino quer isto?”. A minha desculpa foi a melhor que arranjei: “É para a minha mãe, para a limpeza do sanitário!”. O Sr. Francisco não ficou nada convencido.
Claro que, como vim a saber mais tarde, a conversa dele com a minha mãe foi mais ou menos assim: “O teu filho anda a fazer asneiras!”. E com isso, a minha fonte de Nitrato de Potássio secou. Na visita seguinte, a compra foi-me vedada. Fiquei doente, mas não derrotado.
Recorri a um plano B: o meu amigo mais velho, o Nicolau, conhecido por todos nós como o “Kalau”. O Kalau era um homem da pesca, bruto como as portas, mas com um coração enorme. Um cachaço dele era coisa para se aguentar com respeito. Pedi-lhe o favor: “Nicolau, vai ali à drogaria do Sr. Francisco e compra-me um quilo de Nitrato de Potássio”.
O primeiro obstáculo surgiu de imediato: o Nicolau nem conseguia dizer ou decorar o nome. Depois de um esforço tremendo para o ensinar, lá foi ele. Eu, todo contente, já via o sol a espreitar, escondido na esquina à espera que ele saísse da loja.
De repente, o pior aconteceu. O Kalau espreita pela porta da drogaria e, em bom e alto som para toda a rua ouvir, pergunta-me: “Ó rapaz, como é que se chama isso?!”. E logo atrás dele, a figura do Sr. Francisco, com o maior sorriso que alguma vez lhe vi na cara.
Nesse momento, eu disse mal da minha vida.
É uma daquelas histórias que nunca mais esquecerei. Uma memória do engraçado, de um tempo em que a curiosidade de um miúdo para criar “magia” esbarrava, invariavelmente, na sabedoria dos mais velhos.
Está gostei aliás amei
Obrigado, por teres amado…
Uma bela memória da infância do (então) pequeno António, já com a traquinice dos Nunes da nossa geração, muito bem escrita. Nada a ver com os tempos actuais, e como fomos felizes com toda essa liberdade.
Muito obrigado pelas tuas amáveis palavras, Luís! Fico feliz que tenhas gostado da história. Sim fomos muito felizes…
Caso para dizer que o “Kalau” era mesmo como um calhau….
É um bom moço, amigo da minha mãe, sempre me perguntava por ela!