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O Atelier de António Nunes
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A caminhada criativa e as histórias por trás da arte

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A caminhada criativa e as histórias por trás da arte

Memórias de um Artista a Fazer Pólvora

AN_artista, Agosto 6, 2025
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Olho para esta fotografia minha, tirada na escola por volta de 1974, eu com os meus nove anos, e não consigo deixar de sorrir. Talvez já houvesse ali uma qualquer pinta de artista, uma curiosidade inquieta sobre como as coisas se transformam. Mas o que esta imagem não conta é que, por essa altura, a minha grande paixão não era a pintura, mas sim a química… mais especificamente, a arte de fazer pólvora negra.

Ainda hoje sei a composição de cor, mas o ingrediente mais difícil de obter era o Nitrato de Potássio. A minha fonte era a drogaria do Sr. Francisco, um homem de olhar desconfiado. Da primeira vez que lhe pedi o pó branco, a coisa passou, mas não sem a pergunta inevitável: “Para que é que o menino quer isto?”. A minha desculpa foi a melhor que arranjei: “É para a minha mãe, para a limpeza do sanitário!”. O Sr. Francisco não ficou nada convencido.

Claro que, como vim a saber mais tarde, a conversa dele com a minha mãe foi mais ou menos assim: “O teu filho anda a fazer asneiras!”. E com isso, a minha fonte de Nitrato de Potássio secou. Na visita seguinte, a compra foi-me vedada. Fiquei doente, mas não derrotado.

Recorri a um plano B: o meu amigo mais velho, o Nicolau, conhecido por todos nós como o “Kalau”. O Kalau era um homem da pesca, bruto como as portas, mas com um coração enorme. Um cachaço dele era coisa para se aguentar com respeito. Pedi-lhe o favor: “Nicolau, vai ali à drogaria do Sr. Francisco e compra-me um quilo de Nitrato de Potássio”.

O primeiro obstáculo surgiu de imediato: o Nicolau nem conseguia dizer ou decorar o nome. Depois de um esforço tremendo para o ensinar, lá foi ele. Eu, todo contente, já via o sol a espreitar, escondido na esquina à espera que ele saísse da loja.

De repente, o pior aconteceu. O Kalau espreita pela porta da drogaria e, em bom e alto som para toda a rua ouvir, pergunta-me: “Ó rapaz, como é que se chama isso?!”. E logo atrás dele, a figura do Sr. Francisco, com o maior sorriso que alguma vez lhe vi na cara.

Nesse momento, eu disse mal da minha vida.

É uma daquelas histórias que nunca mais esquecerei. Uma memória do engraçado, de um tempo em que a curiosidade de um miúdo para criar “magia” esbarrava, invariavelmente, na sabedoria dos mais velhos.

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Comments (6)

  1. Cláudia Labrujó diz:
    Agosto 6, 2025 às 9:28 pm

    Está gostei aliás amei

    Responder
    1. AN_artista diz:
      Agosto 6, 2025 às 10:11 pm

      Obrigado, por teres amado…

      Responder
  2. Luis Faria diz:
    Agosto 6, 2025 às 9:51 pm

    Uma bela memória da infância do (então) pequeno António, já com a traquinice dos Nunes da nossa geração, muito bem escrita. Nada a ver com os tempos actuais, e como fomos felizes com toda essa liberdade.

    Responder
    1. AN_artista diz:
      Agosto 6, 2025 às 10:12 pm

      Muito obrigado pelas tuas amáveis palavras, Luís! Fico feliz que tenhas gostado da história. Sim fomos muito felizes…

      Responder
  3. TN diz:
    Agosto 7, 2025 às 3:20 pm

    Caso para dizer que o “Kalau” era mesmo como um calhau….

    Responder
    1. AN_artista diz:
      Agosto 7, 2025 às 8:36 pm

      É um bom moço, amigo da minha mãe, sempre me perguntava por ela!

      Responder

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