A loja do meu primo, José Maria Gavinho Pinto, no coração do Terreiro de Caminha, era um mundo à parte. Era o palco da sua vida, e eu, muitas vezes, tinha o privilégio de ser um espectador silencioso, sentado naqueles três degraus que davam acesso à casa, no interior da loja. Daquele meu posto de observação, eu via a vida a acontecer. E numa tarde, já no início deste século, assisti a uma cena que, ainda hoje, me faz rir e me recorda a essência da verdadeira amizade.
Estava eu no meu sítio do costume quando entraram dois homens, amigos do meu primo, a falar um galego cerrado. Dirigiram-se a ele com uma missão muito específica, que me deixou de orelha em pé. Vinham da parte de um amigo em comum, o “Manuel o Careca”, que lhes tinha garantido que o Zé Gavinho vendia armas. Pistolas, para ser mais preciso.
Confesso que o meu coração deu um salto. Olhei para o meu primo, à espera que ele se risse e desmanchasse a brincadeira, mas a sua reação só aumentou o meu desassossego. Com uma calma e uma seriedade impressionantes, ele limitou-se a dizer: “Aguardem aí um bocadinho que já venho”. E desapareceu por aquela porta misteriosa à direita, a que dava para o armazém das provas de Vinho do Porto.
A minha cabeça começou a andar à roda. “Vem aí merda”, pensei eu, com os meus botões. Como era possível? O meu primo, um poeta, um homem da igreja… metido em negócios de armas? Enquanto eu me debatia com a incredulidade, os dois galegos, esses, pareciam encantados. “Mira que arsenal el hombre tiene”, diziam eles em voz baixa, cheios de expectativa.
O suspense terminou quando o meu primo regressou, a carregar uma caixa enorme, que pousou com um baque surdo em cima do balcão. Eu não queria acreditar no que via. Eles chegaram-se ao balcão, e o meu primo, com a cara mais séria do mundo, como se estivesse a realizar a transação mais perigosa da sua vida, abriu a caixa.
“É isto que vocês procuram?”, perguntou.
Lá dentro, em vez do brilho do aço, estava o brilho da cerâmica pintada de um monumental Caralho das Caldas.
A minha inquietação desfez-se na gargalhada mais sonora e libertadora que dei em muito tempo. Foi impossível contê-la. Os nossos amigos galegos, ao perceberem a genialidade da partida, juntaram-se a mim no riso. “Joder que nos tramaram!”, exclamaram, rendidos.
Naquele dia, eu não assisti a um negócio de armas. Assisti a algo muito mais poderoso. Vi, ao vivo, o que significa a amizade pura, a confiança cega e a cumplicidade entre homens de bem, capazes de construir uma peça de teatro perfeita, apenas pelo prazer de terminar tudo com uma boa gargalhada. E essa foi uma lição que, daquele meu cantinho nos degraus, eu aprendi e nunca mais esqueci.
O Caralho das Caldas é uma boa arma… só para que conste!
Não haja dúvidas…