Há ideias que nascem numa mesa de café e mudam a paisagem de uma comunidade para sempre. A história do primeiro Cortejo Etnográfico e Cultural das Festas de Valença é uma delas. Hoje, 14 anos depois, vê-lo “a bombar” enche-me de um orgulho imenso, mas o caminho até lá foi uma aventura de meses de trabalho, um carro com um desgaste jeitoso e um momento de pânico… provocado por mim.
Tudo começou em 2010. As Festas do Concelho tinham regressado a Valença depois de um longo hiato, e uma nova comissão, com gente dedicada como o Luis do Café da Cidade e o Sr. Alves da Urgeira, o Sr. Franquelim e outros, estava a dar o seu melhor. Nas conversas de café, era inevitável ouvir os planos e os desafios. Notei que havia um vazio no programa da tarde de domingo. A minha sugestão foi imediata: “Porque não preencher essa lacuna com um cortejo que mostre a riqueza das nossas freguesias, as nossas tradições e associações?”
Naquele ano, a ideia pareceu complexa de mais para organizar de raiz e ficou na gaveta. Mas as boas ideias têm a sua própria teimosia.
Entramos em 2011. A mãe do meu filho entra para a comissão de festas e, de repente, sou abordado com um convite para me juntar a eles. Recusei, mas já suspeitava do que estava por trás daquele convite. A tarefa que eu tinha sugerido para os outros, no ano anterior, sobrava agora para mim. E, claro, lá acabei por entrar na onda.
Foram meses de dedicação. Percorri o concelho de uma ponta à outra, reunindo com todas as associações e freguesias, explicando o projeto, mobilizando vontades. Fi-lo com gosto, mas o meu carro sentiu bem o peso do entusiasmo. O que eu não sabia era que a parte mais memorável de todo este processo não seria o cansaço, mas sim os últimos 30 minutos antes do cortejo começar.
Chegou o grande dia. O ponto de encontro era o Campo da Feira. Eu tinha um plano meticuloso, uma lista de contactos e horários para cada grupo entrar no recinto de forma organizada. Mas, para quem não estava na posse desse plano, o cenário era desolador: um campo praticamente vazio a poucos minutos da hora marcada.
Vejo o Luis e o Alves a aproximarem-se. A preocupação estava estampada nos seus rostos. Olhavam para mim com um ar de fracasso iminente. “Nunes, tu tens a certeza que está tudo bem? Nós estamos preocupados, não vai vir ninguém!”, perguntaram eles, com a voz carregada de ansiedade.
Confesso, não resisti. Vi ali uma oportunidade de ouro para brincar com a situação. Com a minha melhor cara de apreensão, respondi: “Pois… também já estou a ficar preocupado. Tu queres ver que não vem mesmo ninguém?”
Se palavras pudessem pintar, as caras deles teriam sido pintadas de branco cal. O pânico instalou-se.
Foi então que, com um sorriso interior, peguei no telemóvel e na minha lista sagrada. Comecei a ligar, um por um. “Força, podem entrar.” “É a vossa vez, avancem para o recinto.”
Em menos de meia hora, a magia aconteceu. O Campo da Feira, antes vazio, transformou-se num mar de gente, de cores, de tratores e carros alegóricos. Estava repleto de vida e da alma de todo um concelho. A cara dos meus amigos passou do branco pânico à mais pura alegria. Os abraços que se seguiram valeram por todos os quilómetros que fiz.

Foi um prazer imenso ver o primeiro Cortejo Etnográfico e Cultural de Valença a desfilar pelas ruas, um evento que, para além de organizar, tive o gosto de enriquecer com a criação do carro alegórico do “Caldo Verde” e com o design do cartaz das festas.
Hoje, 14 anos depois, o cortejo continua. E eu continuo a sorrir ao lembrar-me daquele dia, daquela lição: por vezes, para que a festa seja completa, é preciso uma pequena dose de pânico… e uma lista de contactos bem organizada.
Fantástico, obrigada de coração 👌👌 mas cada vez escasseia mais o voluntariado esse é hoje um dos sérios problemas que a sociedade no geral se depara.
É uma ótima observação e toca num ponto muito sensível. A sua preocupação com a escassez de voluntariado é, infelizmente, uma realidade em muitas comunidades. A história que contei demonstra exatamente a importância do voluntariado, o Luís, o Sr. Alves, o Sr. Franquelim, e todos os que se juntaram à iniciativa ou cortejo jamais teria saído da gaveta. O esforço e o tempo que investiram foi o motor que permitiu transformar uma ideia de café numa tradição que já dura há 14 anos.
Obrigado, a sua mensagem é um aviso valioso, para que eventos como este continuem a existir, é fundamental que as pessoas se envolvam e participem. O voluntariado não é apenas sobre trabalho, é sobre criar laços e manter viva a alma da comunidade.