Existem desafios que um artista não recebe apenas como um trabalho, mas como uma honra. Em 2024, fui convidado pelo executivo a criar uma peça que assinalasse as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. Para mim, que vivi esses momentos, o convite foi mais do que uma encomenda; foi um regresso a casa, uma oportunidade de dar forma a memórias que fazem parte de quem sou.
A ideia surgiu de imediato: um Cravo. O símbolo da nossa liberdade, da revolução que nos deu a voz. Mas não podia ser um cravo qualquer. Tinha de ter o peso, a força e a resiliência da própria democracia que celebrava. A estrutura seria de ferro.
Foi então que a minha caminhada artística me levou a um dos meus lugares preferidos: o depósito de materiais em fim de vida dos estaleiros municipais. Para muitos, um cemitério de ferro velho. Para mim, um tesouro de peças à espera de uma nova história. Perdi-me ali, à procura das peças do puzzle que tinha na cabeça. Este processo, que muitos chamam de “reciclar”, é para mim algo mais profundo: é dar uma nova vida, uma nova dignidade e, neste caso, uma nova voz a materiais que já serviram a nossa comunidade.
Peça a peça, ponto de solda a ponto de solda, o cravo começou a nascer. Com 2,3 metros de altura e um peso que ronda os 500 quilos, esta não é uma flor frágil. É uma estrutura de ferro, tratada e pintada, que se ergue com a força do metal e a delicadeza de uma pétala.
O título surgiu com a naturalidade de uma certeza: “O Cravo que Resiste”.
Resiste ao tempo, tal como a memória de Abril. Resiste às intempéries, tal como a liberdade que temos de proteger todos os dias. E resiste no seu próprio material, renascido do que estava esquecido, provando que, mesmo a partir do que é descartado, podemos forjar os símbolos mais importantes da nossa identidade.
Hoje, este cravo acompanha a exposição de cartazes que também tive o prazer de desenvolver. E para mim, ele é mais do que uma escultura. É a prova de que a arte, tal como a democracia, por vezes tem de ser feita de ferro para poder resistir.