Há trabalhos que são mais do que uma encomenda; são uma conversa entre amigos. Há lugares que são mais do que um local; são uma extensão da nossa casa. O mural que pintei em 2024 no Aldeamento Turístico do Camarido, aqui em Caminha, nasceu precisamente na junção destas duas verdades.
Quando os responsáveis pelo aldeamento, que são para mim amigos como se fossem família, me lançaram o desafio, a resposta foi um sim imediato. O objetivo não era simplesmente “pintar um muro”. Era transformar uma parede funcional, o fundo de um campo de ténis e de lazer, num espaço mais acolhedor, que enriquecesse a paisagem sem a perturbar.


O desafio era delicado: como dar vida e cor a uma superfície tão grande, num local de tamanha beleza natural como a Mata do Camarido, sem criar um ruído visual? Como encontrar um equilíbrio que honrasse a tranquilidade de Caminha, esta vila abençoada por duas fozes, a do Minho e a do Coura?
A resposta, para mim, estava no minimalismo e nas cores da própria terra. Em vez de impor uma imagem, procurei criar um eco da paisagem minhota.
Usei os tons quentes e ocres da terra e do pôr do sol que banha as nossas praias. Pincelei os azuis profundos e os verdes que vemos nos montes e no rio. As árvores, estilizadas, são uma homenagem à Mata do Camarido, figuras esguias que pontuam o horizonte sem o sobrecarregar.
O mais interessante foi integrar os elementos que já lá estavam. A baliza de futebol não foi um obstáculo; tornou-se parte do cenário. A arte não se sobrepôs à função, abraçou-a. Agora, os golos dos miúdos são marcados contra um fundo de paisagem sonhada.
No meio da cena, uma figura solitária observa. Pode ser um viajante que descansa, um morador que contempla a paz do fim de tarde, ou talvez até um pouco de mim mesmo, a testemunhar a transformação do espaço. Gosto de pensar que cada hóspede que por ali passar se pode rever naquele observador silencioso.
Este mural foi um dos projetos de um 2024 muito produtivo. E hoje, ao olhar para ele, não vejo apenas uma pintura. Vejo uma obra que serve de palco para o lazer, para o desporto e para as memórias de férias de muitas famílias. Uma obra nascida de uma amizade, para um lugar que acolhe amigos. E, no fundo, é isso que a arte deve ser: um gesto que enriquece a vida.